31 maio 2010

O Alberto

O Alberto era a personagem mais falada na época do Natal, quando eu ainda vivia com os meus avós.

O senhor Alberto, como eu lhe chamava na altura, ora um ano oferecia um caixa de bolachas inglesas (com um complicado rótulo azul sobre um paralelepípedo em lata) ora outro, oferecia uma garrafa de espumante.

O meu avô gozava sempre com o espumante e não se inibia de dizer quando se abria a garrafa: “ Lá vamos beber o xixi do Alberto”!

Durante anos perdi o Sr. Alberto de vista. Um dia, encontrei-o em frente da sua antiga mercearia. Agora era um armazém com as montras transformadas em entrada de garagem. Estava na mesma, talvez com menos brilhantina nos cabelos, sem bigode e sem aquela bata cinzenta. O cinzento tinha-lhe ido para os cabelos e uma gravata crescera à volta do pescoço.

Continuei o meu caminho. Sorri a pensar no “xixi” do Alberto!

30 maio 2010

Sábado cultural

Hoje, lá pelas tantas da tarde que se anunciava primaveril, resolvi adicionar mais um pouco de cultura – não vá um homem morrer sem adquirir mais um pouco de saber!

1.    Os arcos da Reitoria abrigavam uma feirinha do Livro Antigo, três ou quatro livros interessantes mas caros (relativamente ao seu estado de conservação). Outros tantos alfarrabistas simpáticos e sorridentes. Mas aquela morosidade daquelas coisas para especialistas mais ou menos com um pé na terceira idade. E eis que fico de boca aberta! Aquela estátua – que para mim sempre simbolizou os “Combatentes da Primeira Guerra” que, ainda há pouco tempo estava em frente à escadaria principal, desapareceu! Mais uma tentativa de apagar a Memória?
Lá continuei feliz e contente, tinha vontade de tomar um “cimbalino curto” por aqueles lados, pois era!
Era quase uma linha recta até ao Piolho. (pensava eu) ao atravessar a Praça Parada Leitão quase fui atropelado por dois veículos, sem dúvida conduzidos por energúmenos “saloios” que seguiam os gestos largos de arrumadores.
Meia volta diante dos novos aquários que tentam abafar aquelas raquíticas árvores que o projecto do arquitecto Cortesão lá implantou.
2.    Olho para o lado direito. Grande animação ali perto do antigo “café Luso”. Lá vou eu ver o que se passa com tanta gente! Ó o que o Porto é belo (mas não sei quem conseguiu botar dos L’s). Coisas velhas, cadernos envelhecidos como vinho, mas em caves demasiado húmidas, a 3 euritos a vintena de folhas, reedições dos meus livros do ensino primário – aqueles mesmos que têm um puto da Mocidade Portuguesa, todo sorridente, na capa! Pipocas, sofás em esferovite, cabos eléctricos no meio da praça, nem se reparava que mais uma vez a baioneta do soldado tinha sido subtilizada.Felizmente que encontrei um vendedor de máquinas fotográficas simpático com quem relembrei antigas coisas relativas ao cinema e à fotografia, formatos, fabricantes, etc. Ele também era do tempo anterior à moda das Holgas e da Lomografia. Bem tentei ir tomar o meu cimbalino na padaria Turim. E lá, outra vez, fiquei mais que chateado. Três ou quatro filas de carros, arrumados como sardinhas numa lata (deviam ser os parolos que desembarcaram a mercadoria), impediam a passagem de um cristão. Desisto do café – um “segafredo” daqueles “comme il faut”. Mas continuava com aquela sede cultural, carago! Mais uns tantos passos e as galerias não estão longe! Não era para comprar, simplesmente para ver! Mas Miguel Bombarda e as suas galerias estavam desertas. Admirei as caixas de saneamento bem visíveis numa loja ali em frente das caraças em cimento que povoam o solo da rua. Caraças, estava mesmo a ficar com o meu sábado lixado! Felizmente que a “C. T.” que me acompanha por estes passeios, e na vida, teve a feliz ideia. Lá fomos pela rua que tem o nome do Casais Monteiro e onde morou o Veiga Leitão. 
3.    A exposição do Nadir Afonso estava ali a dois passos. Há que tempos que queríamos ver a obra gráfica do arquitecto nascido em Chaves. Tínhamos tempo. Precisávamos de  aproveitar o sol. Novo obstáculo! Passar pelo passeio era trajecto impossível. Sim, os argonautas condutores de Jeeps e de SUVs tinham encostado o focinho mesmo à parede do Museu! Um dos distraídos estava mesmo sobre a rampa de acesso para os deficientes! Com um cuidado meticuloso lá ousámos botar um pé, depois outro, naquela praça rodoviária que se encontra em frente do M.N.S.R. Puf! Felizmente que o trânsito a sair do túnel (de Ceuta, dos Almadas, já não sei como lhe chamar) era quase nulo. Felizmente que o Museu tem uma cafetaria, lá apreciámos o cimbalino num pátio com azulejos. O pátio merece a visita! Depois do café e do cigarrinho subimos até ao jardinzeco maltratado com um laguinho muito sujo. E a exposição? Para lá chegarmos passámos antes numa coisa sobre Darwin, muito contemporânea, muito viva, muita música, também muito patchwork. Deu-me a impressão que tinham ido buscar coisas e loisas ao acervo. Isto é, verdadeiramente nula! Depois de um percurso labiríntico lá chegamos ao grande espaço das exposições temporárias. Portagem: 5 € por pessoa! Sim, descobri coisas do Nadir que desconhecia! Coisas que acabam pelos anos sessenta. Interessante para quem pouco sabe da vasta obra do colaborador de Le Corbusier que abandonou a arquitectura e se dedicou à pintura. E acabámos por ver uma pequena mostra de trabalhos “artísticos” de putos das escolas de Miragaia. Eles devem estar contentes por terem invadido um Museu Nacional.
Tudo isto para vos dizer que o acesso à Arte e à Cultura continua a ser um pouco difícil! Mesmo num sábado de Primavera em que os automobilistas não respeitam os outros cidadãos! Se eu, peão, estacionasse numa faixa de uma SCUT de certeza que me passavam por cima, e a responsabilidade seria minha. Mas o elogio do automóvel é permitido implicitamente pelos edis!

28 maio 2010

Jardins




Fui ao palácio. De cristal já tem pouco. Há duas semanas estive no jardim do Luxemburgo – o meu caro Luco! Triste e sujo o palácio. Sem vida. Crianças a gritarem e pais a distribuírem cachaços a torto e a direito. No Porto é um jardim para fazer um “cross”, em Paris um jardim para passear. Folhas caídas, poeira. E eu continuo a dizer que este Porto me magoa. (2009)

27 maio 2010

Andar nos passeios da cidade

O carro apontou o focinho ao passeio, uns metros à minha frente.
Parei.
Dois pneus galgaram o passeio deixando ainda um pouco de espaço entre a parede e o veículo.
Fixei o olhar na condutora. Jovem. Abanei a cabeça em sinal de desacordo. Tinha uma dor de dentes insuportável.
Ao passar, ela pergunta:
- O que foi?
Mesmo do outro lado da rua havia um lugar vago.
Respondo-lhe:
- Incomoda-me a mim e a todos os peões. Tem mesmo um lugar ali em frente!
- Só tenho por dois ou três minutos, vou buscar o meu filho ao infantário. Naquele lugar tinha que pôr a moeda na máquina, tinha que pagar.
- E assim incomoda as pessoas, não é?
A condutora começa a berrar. Mas o que quer? Mas o que quer?
Só lhe respondo: Estúpida!
Doía-me um dente, tinha um abcesso. Não tinha vontade de perder tempo.
Fiquei sem perceber se, para aquela mulher de cerca de trinta anos e de cabelos pintados de claro, a lei só se resumia ao ter que pagar num lugar de estacionamento correcto. Afinal ela estava no seu pleno direito de parar o carro e incomodar as outras pessoas.
O que lhe ensinaram na escola?
Com uma mãe como ela, como será, no futuro o seu filho?

(Na rua Miguel Bombarda, entre um infantário e o Centro de Saúde, terça-feira, 25 de Maio de 2010, por volta das 17 horas).